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Museu De Novidades

Posted by Gilberto Lenz em 13/05/2009

Matéria publicada no Jornal Online O Estado de S.Paulo.

Quando os computadores chegaram às escolas públicas foram celebrados pela classe política, mas causaram calafrios aos educadores. O que fazer com aqueles elefantes brancos parados numa sala?

SÃO PAULO – Quando os primeiros computadores chegaram às escolas pública brasileiras, por volta de 1995, ao mesmo tempo que que foram celebrados pela classe política, causaram calafrios aos educadores. O que fazer com aqueles elefantes brancos parados numa sala? 

Eles tinham razão em perguntar. A capacitação profissional para aquela geração de educadores chegou com um atraso tremendo, causando um gap tecnológico entre educador (que tinha nascido na época das velhas “Remingtons”) e educando (que nasceu informatizado).

Na época, repórter de uma revista especializada, cheguei a assisir a uma “aula” de como ligar e desligar um micro! Muitas salas de tecnologia permanecem trancadas à chave até hoje; imagem que lembra aquela de livros empoeirando em uma biblioteca, porque ninguém deve manuseá-los para não “estragá-los”.

A dúvida que paira daquele tempo para cá, em que laptops são os “elefantes” do momento, é: o que fazer com essa tecnologia em sala de aula. Computadores não educam sozinhos; nem livros. Ambos são meios, ou recursos, para uma potencial prática pedagógica, que pode ser interessante e eficiente. Práticas essas, inclusive, que a escola pública, que recentemente se universalizou, busca para melhorar a qualidade do seu ensino.

Algumas experiências espalhadas no Brasil utilizam a estrututa de tecnologia da escola para a produção de mídia pelo alunos. Os  estudantes criam jornais, fanzines, rádios via Internet e até vídeos sobre sua comunidade e escola. Aprendem assim sobre o funcionamento da mídia e tem a oportunidade de expressarem-se sobre os mais diversos temas que os tocam. Na universidade, surge um campo novo de estudo chamado educomunicação: interseção das áreas da educação e da comunicação.

O campo é recente, mas não a prática. O sociólogo francês Célestin Freinet (1896 – 1966) cunhou o termo “imprensa escolar” e desenvolveu centenas de jornais feitos por estudantes no sistema público da França como forma de envolver e ampliar a participação dos estudantes no cotidiano comunitário. Já o célebre Janusz Korczak (1878 – 1942) utilizou a comunicação como forma de resistência de estudantes e professores no começo da ascenção nazista. Ambos em épocas em que o conceito de mídia de massa ainda era bem difuso.

Hoje, a relação do estudante com a mídia de massa, produção de informação e a tecnologia já existe independente da escola querer ou não trabalhar com isso tudo. O mundo da comnicação é mais atrativo, dinâmico e rápido que a o da educação. Chega bem antes ao aluno. Na pior das hipótestes é melhor ter a mídia de massa como aliada, do que como inimiga. Por isso, as experiências atuais de educomunicação passam por ler, interpretrar e analisar a mídia, mas também produzir informação de qualidade.

Fiquei surpreso ao encontrar, no último dia 28 de fevereiro,  mais demais de mil professores da rede pública no Ceará, de cerca 40 municípios, para discutir a participação do jovem na escola por meio de jornais (ainda mais em uma “ponte” de feriado canavalesco). Tratava-se de um congresso organizado pela ONG Comunicação e Cultura, que estimula atualmente mais de 1000 jornais em escolas pela Ceará, Bahia, Pará e Rio Grande do Norte.

Mesmo sendo a educomunicação uma prática crescente, a escola pública ainda olha com desconfiança para o que acontece fora de seus muros. Não diferentemente do que aconteceu há quase cem anos: o destino de Freinet foi a expulsão do sistema formal de ensino da França; e o de Korczak, a câmara de gás.

Mas os tempo mudaram na França atual: o Clemi, laborátório referência no estudo das relações entre educação e comunicação, aprovou junto ao Congresso o trabalho com mídia como prática curricular escolar.

Por aqui, em época de discussão sobre currículum no ensino médio – a nova pauta do MEC –  seria adequado olhar mais para fora dos muros da escola. Prestar atenção na informação consumida e produzida por nossos estudantes. Um estudo recente do Unicef (Aprova Brasil), analisando minuciosamente as escolas com nota acima média no prova Brasil, reconheceu que sua maioria realiza programas que envolvem os estudantes nas discussões da comunidade e da escola – muitos deles programas de produção de mídia.

No  projeto Mais Educação do MEC (de educação integral para o primeiro ciclo do ensino fundamental), a educomunicação já é uma das opções de adesão para as escolas. Mas essa é ainda uma discussão fora da coluna vertebral da educação: o curriculum.

Afinal, aparatos tecnológicos não vão parar de chegar, cada vez mais baratos, às escolas; se as práticas pedagógicas não acompanharem esse ritmo, vão virar, rapidamente, peças inúteis de um museu de novidades.

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